Gustavo Teixeira
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“Corria o ano de 1881. São Pedro estava em festas. Finalmente ganhara autonomia. De vila passara a município. Libertara-se de Piracicaba! Mas era ainda bem pequenina a cidade que chamavam de São Pedro de Piracicaba. A população não passava de três mil habitantes. E as casas comerciais não passavam de uma dezena. Em compensação havia fazendas e sítios: mais de uma centena. As terras na maior parte pertenciam aos Teixeiras. Os imigrantes italianos ainda não tinham chegado para ajudar na lavoura. Só a partir de 1890, eles viriam.
Mas 1881 seria marcado por outro grande acontecimento. Foi nesse mesmo ano que nasceu o nosso poeta maior: Gustavo de Paula Teixeira. Nasceu ele no dia 4 de março, no sítio São Francisco, de propriedade de seu pai, Francisco de Paula e Silva e de sua mãe D. Miquelina Teixeira de Escobar, filha do povoador de São Pedro, o patriarca Joaquim Teixeira de Barros.
Foi no lar paterno que Gustavo aprendeu as primeiras letras. A Mãe fora educada no Colégio das Irmãs de São José, em Itu. Era culta e pôde transmitir-lhe os primeiros conhecimentos. O pai também amava a boa leitura. Tinha em sua biblioteca os maiores poetas de nossa língua. Gustavo lia tudo com avidez. Aos 12 anos, o nosso poeta já fazia seus primeiros versos. Com apenas 17 anos dava aula como professor particular na fazenda Campestre, de seu tio materno Joaquim Teixeira de Toledo.
Com 20 anos de idade foi para São Paulo continuar os estudos em companhia do irmão mais velho, também poeta e muito culto: Francisco de Paula Teixeira.
Em São Paulo seus sonetos foram inicialmente publicados no “Correio Paulistano”. Depois colaborou com publicações em outros jornais e revistas de S. Paulo, de Campinas, de Piracicaba, do Rio de Janeiro, De Portugal. Suas poesias eram tão apreciadas que foram traduzidas para outras línguas e assim publicadas em países longínquos.
Em 1905 começou a trabalhar para dois jornais paulistanos. Mas, vindo de passeio a São Pedro, ofereceram-lhe o lugar de Secretário da Câmara e da Prefeitura. Aceitou e voltou definitivamente para São Pedro, de onde nunca mais sairia. Ofereciam-lhe cargos importantes na imprensa de São Paulo e do Rio. Mas ele não quis mais sair de sua terra natal.
Aqui vivia para o trabalho e para sua paixão: a poesia. Sem vaidade, sem preocupação com fama e prestígio. Era o “poeta dos humildes”, como o chamou Lígia Fagundes Teles. Era retraído, tímido, modesto.
Em 1908 lançou seu primeiro livro de versos: “Ementário”, com prefácio de Vicente de Carvalho. Em 1925 publicou “Poemas Líricos”.
Sua poesia era saudada com elogios de todos os literatos brasileiros. Chamavam-no de “ o poeta da primavera” tanto eram as “flores que perfumavam a sua lírica suave” (Octacílio Gomes na Folha da Manhã – SP – 19/8/37).
Seu estilo era parnasiano. Um parnasianismo moderado, com alguns toques de romantismo e com alguma influência do simbolismo. Cultuava a beleza da forma poética. Versos bem trabalhados, com imagens clássicas, com pinturas admiráveis da natureza. Seu cuidado com a perfeição lingüística era notável.
Na edição de 1925 de “Poemas Líricos”, Gustavo Teixeira anunciou seus próximos livros. Mas só foram publicados após sua morte. Entre eles, aquele que seria considerado sua obra mais importante: “ O Último Evangelho” – uma centena de sonetos bíblicos, nos quais “ele se revela um poeta incomparável na sublime beleza de sua arte”, no dizer de Arruda Dantas.
A fama do poeta corria o mundo. Diariamente vinham literatos e admiradores seus até a cidadezinha de São Pedro para conhecê-lo. Quem por ai passava, parava para vê-lo. Mas ele não se alterava. Sempre de escuro, pince-nez antigo, tranqüilo, com o velho guarda chuva no braço, cruzava silencioso as ruas de São Pedro, parando pouco para conversas. Vivia sob os cuidados da preta Marcelina, mucama também da filha Ondina que ele idolatrava.
Eleito para a Academia Paulista de Letras por unanimidade, para a vaga de Paulo Setúbal, não pôde tomar posse. A morte o levou antes de ele receber a glória literária. Gustavo Teixeira faleceu em setembro, no dia 22, na entrada da primavera: ele que fora chamado “o poeta da primavera”
A grande escritora Lígia Fagundes Teles que conheceu o poeta e passou uma tarde conversando com ele no jardim da cidade, um ano antes de ele falecer fez o seguinte comentário sobre ele: “ nunca mais encontrei, e penso não encontrar mais, uma criatura como ele. Humilde e simples como São Francisco de Assis, talvez não conhecesse a linguagem dos pássaros, mas acho que, realmente, entendia o que conversavam as estrelas, e porque compridas noites passava ele sentado no banco, silencioso, a ponta do guarda-chuva descansando na grama, o olhar vago perdido no céu!...”